quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

O Comboio da Minha Infância

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As rodas gigantes batendo nos carris...
Cutucum...Cutucum... Cutucummm...
Abrandam na chegada à estação.
Dos vagons um cheiro forte de anis,
cana de açúcar transportada
em pilhas para a maceração,
invade o ar. E... tchumm... tchummm...
Espirra água a locomotiva...
E, do comboio quase a parar,
três mocetões negros e robustos
num sorriso enorme e branco,
empoleirados sobre a carga,
reconhecem a menina,
criancita alegre e loira
que no quintal espera
a chegada do kurikutela.
Arremessam-lhe algumas pequenas canas
já costume e promessa,
que ela apanha e sofregamente
mastiga e chupa,
dizendo-lhes adeus
nos bicos dos pés dos seus quatro anos.

Visualiza a bandeira vermelha , depois a verde
Cchummm... chumm...
e, finalmente o comboio parou.

O chefe, homem de convicção,
gorducho, quase careca, bonacheirão
dá as ordens e arruma a questão.

E, a menina loira encantada
abre o grande portão
da casa contínua à estação
Corre... corre...
E, num abraço terno de emoção
lança-se naqueles amados braços
recebendo o beijo do seu avô,
o Branco, Chefe daquela Estação...

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O comboio mala apita ao longe.
Úúúhhh...Úúhhh...
Tchuque... tchuque...tchuque...
Num contínuo tchuca tchuca.
As carruagens apinhadas de gente,
já dormidas em confortáveis bancos
que abertos se transformam em cama,
levam e trazem vidas.

E, entre cada estação,
duma extensa linha ferroviária
uns saem e outros entram,
no meio da confusão,
de variantes e desvios.
Homens, mulheres, crianças de várias raças,
cabeças apenas, no meio da multidão,
lá vão a todo o vapor,
sem se preocuparem com a cor,
todos de mala na mão,
bagagem de vidas vividas
por angolana paixão.

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À entrada da cidade,
alguns quilómetros antes da estação
brincando felizes no eucaliptal,
sentindo o cheiro da terra,
encostando o ouvido à via férrea,
eu, a criancita loira, já mais crescida,
minha irmã e meus primos, (seus filhos),
nas chegadas e nas partidas
assobiando estridentes apitos
acenando com lenços brancos
no adeus ao maquinista
o meu querido tio Armindo,
dos comboios um grande artista.

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No som troante da garrá,
no faiscar das fagulhas,
no acertar das agulhas,
veneno no sangue do meu pai
também outrora ferroviário,
apesar da distância,
na recordação do cenário
ainda hoje, saudosa, digo adeus
ao comboio da minha infância.


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