segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Eterna


(Imagem da Net)


Aos acordes timbrados dum piano
que propositadamente teimo escutar,
num "For Elise" repetitivo
eis-me, novamente, imaginando
os contornos do teu rosto,
afundando-me na solidão do teu olhar.

Esqueço o mundo que me rodeia
e, sentindo a quietude mansa do instante,
na consciência da inércia, me confundo,
alheando-me das coisas banais.

Se ausente és, em mim,
porém, permanência e demora,
luminosidade e agora,
como apagar-te da memória
onde sempre viveste
transcendência, sonho, ilusão?

E, se a pródiga imaginação
insubmissa não te ignora,
como negar-te a existência
se és, em mim, o aflorar
duma distinta paixão?

Meu oásis, neste deserto que nos cerca,
neste quase nada desconhecido,
és em meu mar de esperança transformado,
em desejo, em realidade acontecido.

Tu... que, fisicamente, me és estranho,
neste não sei quê de nostalgia
surges onda e, em maré cheia de poesia,
absoluta te encontro e te desvendo...

Entre tuas mãos carnais
mas ainda imaginárias
que, dos meus vestidos brancos,
inteira me despem,
eterna, me debato e me entrego.

Pelos séculos, infinitamente,
em sublime excitação,
simplesmente nos amamos,
sem amarras, sem lascívia, sem pecado,
na perfeita coerência
dum real jamais alcançado.


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