70º Programa - José António Ribeiro - DIZER POESIA by MisabelBranco
70º Programa: José António Ribeiro - És tu aqui, mas tão longe; O Alentejo imenso (e o Meu - Sublime poesia)
http://tv.rtp.pt/multimedia/progAudio.php?prog=3273
Transmitido na RDP Internacional a 27 de janeiro de 2012.
sábado, 28 de janeiro de 2012
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
Poesia do Poema; Anjo Caído; A Minha Alma - António Barroso Cruz
69º Programa - António Barroso Cruz - DIZER POESIA by MisabelBranco
69º Programa: António Barroso Cruz - Poesia do Poema; Anjo Caído; A Minha Alma (e o Meu - Boa Viagem)
http://tv.rtp.pt/multimedia/progAudio.php?prog=3273
Transmitido na RDP Internacional a 20 de janeiro de 2012.
69º Programa: António Barroso Cruz - Poesia do Poema; Anjo Caído; A Minha Alma (e o Meu - Boa Viagem)
http://tv.rtp.pt/multimedia/progAudio.php?prog=3273
Transmitido na RDP Internacional a 20 de janeiro de 2012.
Eras; Desmorta; Passados - Alberto Silva
68º Programa - Alberto Silva - DIZER POESIA by MisabelBranco
68º Programa: Alberto Silva - Eras; Desmorta;Passados (e o Meu - As duas faces do silêncio)
http://tv.rtp.pt/multimedia/progAudio.php?prog=3273
Transmitido na RDP Internacional a 13 de janeiro de 2012.
68º Programa: Alberto Silva - Eras; Desmorta;Passados (e o Meu - As duas faces do silêncio)
http://tv.rtp.pt/multimedia/progAudio.php?prog=3273
Transmitido na RDP Internacional a 13 de janeiro de 2012.
domingo, 8 de janeiro de 2012
Fim de festa
Despendurei as estrelas da árvore de Natal,
descoordenei-lhe os ramos,
arrumei as pecinhas de cristal
em gavetas de solidão.
E as ideias entristecidas...
num tocar de sinos calados
por aqueles que mais amamos,
quedaram-se em grande confusão!
Murcharam as velas douradas ,
agora também guardadas,
e os enfeites, as cores, as fitas , o festival
todos juntos, em fim de festa,
numa caixa silenciados
esperam o ano inteiro nova luz, afinal...
Isabel Branco
sábado, 7 de janeiro de 2012
POETAS DE PALMO E MEIO
67º Programa - Poetas de Palmo e Meio - DIZER POESIA by MisabelBranco
67º Programa: Poetas de Palmo e Meio - Vários poemas de crianças do 1º ciclo da Escola da Coreeira em Albufeira, alunos do prof. Nelson Moniz (e o Meu - Criança me sinto)
http://tv.rtp.pt/multimedia/progAudio.php?prog=3273
Transmitido na RDP Internacional a 06 de janeiro de 2012.
67º Programa: Poetas de Palmo e Meio - Vários poemas de crianças do 1º ciclo da Escola da Coreeira em Albufeira, alunos do prof. Nelson Moniz (e o Meu - Criança me sinto)
http://tv.rtp.pt/multimedia/progAudio.php?prog=3273
Transmitido na RDP Internacional a 06 de janeiro de 2012.
sexta-feira, 6 de janeiro de 2012
Estou Cansada...
Estou cansada...
De tanto querer que me oiças,
de tanto imaginar que me queiras ouvir,
de tanto silêncio ao meu redor...
Ai!...Esta brisa que me chega
trazendo-me das ilhas a promessa de chuva,
a lágrima roliça,
a alga escorregadia...
Ai!... Esta musica que o eco repete
e o mar embala em areia e espuma
entre as rochas e o mistério...
Estou cansada...
De tanto te querer,
de tanto esperar que me queiras,
de tanto beber a tua ausência...
Ai!...Esta voz que me segreda
trazendo-me das montanhas o grito
da tua alma condenada
a tanta vida solitária...
Ai!...Esta saudade que nos envolve
trazendo-me do planalto a infância
nos cheiros da terra
e no mágico desabrochar duma flor...
Estou cansada...
De tanto, por nenhum de nós dois apaziguada,
de tanto chorar-te calada,
de tanto sofrimento e injustiça...
Ai!...Esta gaivota que me acena
trazendo-me o adeus anunciado,
bálsamo de tantos anos perdidos
num compasso de esperas e desesperos...
Ai!...Esta canseira que me cansa
trazendo-me de mim ,
de ti, de nós, exausta
qual giesta mortiça,
qual orquídea adormecida...
Estou cansada...
De tanto te repetir o que sinto
de tanto desamor por troca,
de tanto... que tanto a mim própria minto.
Isabel Branco
A PALAVRA
Ontem…no meu universo,
a palavra era a espera,
a vontade férrea,
o portão por abrir!
Hoje… em cada verso,
a palavra é a esfera,
a presença etérea,
o mundo a descobrir!
Amanhã…quem sabe, reverso,
a palavra seja a quimera,
a longa ponte aérea,
o Absoluto, o Provir!!!
Isabel Branco
quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
Dá-me a tua mão; Precisão; Meu Deus, me dê a coragem - Clarice Lispector
66º Programa - Clarice Lispector - DIZER POESIA by MisabelBranco
66º Programa: Clarice Lispector - Dá-me a tua mão; Precisão; Meu Deus, me dê a coragem(e o Meu - Ano Velho. Ano Novo)
http://tv.rtp.pt/multimedia/progAudio.php?prog=3273
Transmitido na RDP Internacional a 30 de dezembro de 2011.
66º Programa: Clarice Lispector - Dá-me a tua mão; Precisão; Meu Deus, me dê a coragem(e o Meu - Ano Velho. Ano Novo)
http://tv.rtp.pt/multimedia/progAudio.php?prog=3273
Transmitido na RDP Internacional a 30 de dezembro de 2011.
quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
Bola de Sabão
Um olhar de análise...
Um estar de viragem...
Um ser de ninguém...
Eis...a multiplicidade da questão!!!
Um abraço arrefecido...
Um beijo esquecido...
Um desamor sem abrigo...
Eis... a incapacidade do coração!!!
Um ano diabólico passado...
Um sonho perfeito alcançado...
Um projeto difícil adiado...
Eis...a veracidade da razão!!!
Um tempo, uma memória...
Um facto, uma máscara, uma história...
Um homem, uma mulher...
Eis...a realidade da emoção!
Um flamingo, um mar...
Um cavalo branco, alado...
Um poema escrito na areia...
Eis...a liberdade duma bola de sabão!
Isabel Branco
terça-feira, 27 de dezembro de 2011
Língua Portuguesa; Dualismo; Natal - Olavo Bilac
65º Programa - Olavo Bilac - DIZER POESIA by MisabelBranco
65º Programa: Olavo Bilac - Língua Portuguesa; Dualismo; Natal(e o Meu - Chegou o tempo do Natal)
http://tv.rtp.pt/multimedia/progAudio.php?prog=3273
Transmitido na RDP Internacional a 23 de dezembro de 2011.
65º Programa: Olavo Bilac - Língua Portuguesa; Dualismo; Natal(e o Meu - Chegou o tempo do Natal)
http://tv.rtp.pt/multimedia/progAudio.php?prog=3273
Transmitido na RDP Internacional a 23 de dezembro de 2011.
sábado, 17 de dezembro de 2011
E, ao anoitecer; Vestígios; Sem Título - Al Berto
64º Programa - Al Berto - DIZER POESIA by MisabelBranco
64º Programa: Al Berto - E, ao anoitecer; Vestígios; Sem Título(e o Meu - Hoje vi)
http://tv.rtp.pt/multimedia/progAudio.php?prog=3273
Transmitido na RDP Internacional a 16 de dezembro de 2011.
64º Programa: Al Berto - E, ao anoitecer; Vestígios; Sem Título(e o Meu - Hoje vi)
http://tv.rtp.pt/multimedia/progAudio.php?prog=3273
Transmitido na RDP Internacional a 16 de dezembro de 2011.
quarta-feira, 14 de dezembro de 2011
Esperanças de um vão contentamento; Eu cantarei um dia da tristeza; Sozinha no bosque - Marquesa de Alorna
63º Programa - Marquesa de Alorna - DIZER POESIA by Isabel Branco2
DIZER POESIA
63º Programa: Marquesa de Alorna - Esperanças de um vão contentamento; Eu cantarei um dia da tristeza; Sozinha no bosque (e o Meu - Trocas)
http://tv.rtp.pt/multimedia/progAudio.php?prog=3273
Transmitido na RDP Internacional a 09 de dezembro de 2011.
DIZER POESIA
63º Programa: Marquesa de Alorna - Esperanças de um vão contentamento; Eu cantarei um dia da tristeza; Sozinha no bosque (e o Meu - Trocas)
http://tv.rtp.pt/multimedia/progAudio.php?prog=3273
Transmitido na RDP Internacional a 09 de dezembro de 2011.
Madrigal; O Sonho; O Poeta Beija Tudo - Sebastião da Gama
DIZER POESIA
62º Programa: Sebastião da Gama - Madrigal; O Sonho; O Poeta Beija Tudo (e o Meu - Alucinação)
http://tv.rtp.pt/multimedia/progAudio.php?prog=3273
Transmitido na RDP Internacional a 02 de dezembro de 2011.
domingo, 11 de dezembro de 2011
Minha Gratidão... * Isabel Branco , Minha Poetisa "Azulinha"
Minha Querida Isabel Branco,
Minha "Poetisa Azulinha"
OBRIGADA!!!
nesta palavrinha
tão comum
minha gratidão
pelo momento...
O meu tempo...
no Tempo teu ...
tal "força" na intenção
palavrinhas minhas
pela tua mão...
"Magia do deserto..."
aconteceu...
e...
curtir a saudade
entrar nas vielas da esperança...
alimentar-me da lembrança
reavivar a nossa AMIZADE...
em "PALAVRAS NOSSAS"
Tu... e Eu!!!
de:aileda/adeliavaz
sábado, 3 de dezembro de 2011
Deixei-te além...
Deixei-te além...
Onde as espinheiras me feriram
no âmago da selva,
na esperança dum rio serpente,
na saudade argilosa
dum cheiro inesquecível...
Deixei-te além...
Onde as flores desabrocham
entre os píncaros das montanhas
na visão dum sol poente
sobre as nuvens de algodão
duma ilha maravilhosa...
Deixei-te além...
Onde criança te encontrei
entre os búzios e as conchas,
naquela praia irreverente,
no tempo da memória
dum sorriso inextinguível...
Deixei-te além...
Onde o abraço se descruza
num último adeus que se acena...
No beijo em nossas bocas latente,
algures num tempo perdido,
sonho e asa de mariposa...
Deixei-te além...
Onde a dor se desprende
de meus olhos chuvosa
nesse barco dolente
(alma minha desvairada),
num silêncio inconcebível...
Isabel Branco
quarta-feira, 30 de novembro de 2011
Falta-me...
Falta-me o mar
que longe me espraia...
esse mar onde me escondo,
esse mar onde me encontro...
Falta-me o beijo
que na areia se espuma
esse beijo que me incendeia,
esse beijo que onda me arrebata...
Falta-me a brisa
que os cabelos me despenteia...
essa brisa que me ameniza,
essa brisa que, livre, além me leva...
Falta-me o azul
que imensidão me ilumina...
esse azul que poema me fascina,
esse azul que abismo me domina...
Faltas-me tu...meu (a)mar
que tumultas meu mundo, meu sonho...
nesse amar que me constrói...
nesse amar que me consome!!!
Isabel Branco
sábado, 26 de novembro de 2011
Tomara...
Tomara o sonho, a emoção, o momento
a inexplicável e louca euforia
e banhar-me de lua
em quartos crescentes de meias noites.
Quisera da dor o fim , o esquecimento...
Um nó cego...uma corajosa ousadia,
e descer a rua
na esperança que me acoites...
Tomara o mar, o azul, o vento,
a frenética dança das folhas secas
e navegar falua
nas mansas águas do teu coração.
Quisera adormecer meu lamento
entre os espinhos das rosas frescas
e ser-te eu e tua,
infinita ...em beijos de rubra paixão!!
Isabel Branco
sexta-feira, 25 de novembro de 2011
Poema à Boca Fechada; Na Ilha por Vezes Habitada; Protopoema - José Saramago
Autodidata, natural de Azinhaga na Golegã e nascido a 16 de Novembro de 1922, José de Sousa Saramago foi jornalista, argumentista, ensaísta, dramaturgo e um brilhante e polémico escritor e poeta português de cariz universal. Nobel da literatura em 1998 ganhou também o Prémio Camões em 95, sendo a sua obra conhecida pelo estilo oral em que a riqueza e vivacidade da comunicação são mais importantes do que a correção da linguagem escrita. Num estilo próprio e único na literatura contemporânea, a sua escrita repensa os acontecimentos, reinventa as figuras históricas e os lugares, criando uma nova realidade histórica, evidenciando também em determinada altura a sua ideologia marxista.
Apesar de pouco se falar de Saramago enquanto poeta e pensador, a sua profunda introspecção, lucidez e sentido critico, para além do seu lirismo e originalidade destacaram-no também nessa área, manifestando-se sobretudo através de três formas: a ode, a elegia e o poema de amor. Como ele próprio disse: “Uma pitada de poesia é suficiente para perfumar um século inteiro.” Para além disso, todos os seus romances são uma imensa e peculiar prosa poética. Vítima de leucemia crónica, Saramago faleceu a 18 de Junho de 2010, aos 87 anos de idade, na sua casa em Lanzarote onde residia com a mulher Pilar del Rio.
Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de outra raça.
Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vaza de fundo em que há raízes tortas.
Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.
Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais bóiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.
Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.
José Saramago
NA ILHA POR VEZES HABITADA
Na ilha por vezes habitada do que somos,
há noites, manhãs e madrugadas em que não precisamos de
morrer.
Então sabemos tudo do que foi e será.
O mundo aparece explicado definitivamente e entra
em nós uma grande serenidade, e dizem-se as
palavras que a significam.
Levantamos um punhado de terra e aperta-mo-la nas
mãos.
Com doçura.
Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a
vontade e os limites.
Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o
sorriso de quem se reconhece e viajou à roda do
mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos
ossos dela.
Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres
como a água, a pedra e a raiz.
Cada um de nós é por enquanto a vida.
Isso nos baste.
José Saramago
PROTOPOEMA
Do novelo emaranhado da memória, da escuridão dos
nós cegos, puxo um fio que me aparece solto.
Devagar o liberto, de medo que se desfaça entre os
dedos.
É um fio longo, verde e azul, com cheiro de limos,
e tem a macieza quente do lodo vivo.
É um rio.
Corre-me nas mãos, agora molhadas.
Toda a água me passa entre as palmas abertas, e de
repente não sei se as águas nascem de mim,
ou para mim fluem.
Continuo a puxar, não já memória apenas, mas o
próprio corpo do rio.
Sobre a minha pele navegam barcos, e sou também os
barcos e o céu que os cobre e os altos choupos que
vagarosamente deslizam sobre a película luminosa
dos olhos.
Nadam-me peixes no sangue e oscilam entre duas
águas como os apelos imprecisos da memória.
Sinto a força dos braços e a vara que os prolonga.
Ao fundo do rio e de mim, desce como um lento e
firme pulsar do coração.
Agora o céu está mais perto e mudou de cor.
É todo ele verde e sonoro porque de ramo
em ramo acorda o canto das aves.
E quando num largo espaço o barco se detém, o meu
corpo despido brilha debaixo do sol, entre o
esplendor maior que acende a superfície das águas.
Aí se fundem numa só verdade as lembranças confusas
da memória e o vulto subitamente anunciado do
futuro.
Uma ave sem nome desce donde não sei e vai pousar
calada sobre a proa rigorosa do barco.
Imóvel, espero que toda a água se banhe de azul e que
as aves digam nos ramos por que são altos os
choupos e rumorosas as suas folhas.
Então, corpo de barco e de rio na dimensão do homem,
sigo adiante para o fulvo remanso que as espadas
verticais circundam.
Aí, três palmos enterrarei a minha vara até à pedra
viva.
Haverá o grande silêncio primordial quando as mãos se
juntarem às mãos.
Depois saberei tudo.
José Saramago
DESPUDOR
Trago na retina
o baú dos segredos
e espelho rosas em águas calmas.
Habito entre as almas
no tom matiz dos medos
e bebo o fascínio
do néctar que escorre
colhido no exílio dos penedos.
Seguro uma caneta de ponta fina
entre a cútis dos dedos,
cúmplice atrevida
das horas silenciosas
e danço nua, na penumbra,
num esvoaçar de borboleta,
despenteada,
pelos olhos da noite espreitada.
Responde-me o eco
que pelo absoluto corre
como fantasma que da lápide se ergue
e, sou, de novo, menina
pela primeira vez enamorada.
Num esvoaçar de pombas,
soltam-se as palmas
dum sol de oiro em declínio
e a lua sem pudor
espreita maravilhada
e vem, mansamente, falar-me de amor.
Isabel Branco
DIZER POESIA
61º Programa: José Saramago - Poema à boca fechada; Na ilha por vezes habitada; Protopoema (e o Meu - Despudor)
http://tv.rtp.pt/multimedia/progAudio.php?prog=3273
Transmitido na RDP Internacional a 25 de novembro de 2011.
domingo, 20 de novembro de 2011
Aforismo; Karingana ua Karingana; Quero ser tambor - José Craveirinha (Moçambique)
60º Programa - José Craveirinha - DIZER POESIA by Isabel Branco2
AFORISMO
Havia uma formiga
compartilhando comigo o isolamento
e comendo juntos.
Estávamos iguais
com duas diferenças:
Não era interrogada
e, por descuido, podiam pisa-la.
Mas aos dois intencionalmente
podiam por-nos de rastos
mas não podiam
ajoelhar-nos.
compartilhando comigo o isolamento
e comendo juntos.
Estávamos iguais
com duas diferenças:
Não era interrogada
e, por descuido, podiam pisa-la.
Mas aos dois intencionalmente
podiam por-nos de rastos
mas não podiam
ajoelhar-nos.
Mulato, filho de pai algarvio, José Craveirinha nasceu em Moçambique,
na capital Lourenço Marques, atual Maputo, a 28 de Maio de 1922, e faleceu a 6 de
Fevereiro de 2003, na África do Sul.
Autodidata, desempenhou diversas actividades. Foi funcionário da
Imprensa Nacional de Lourenço Marques, jornalista, atleta, futebolista,
cronista desportivo, colaborando também em diversas publicações periódicas.
Foi preso pela PIDE, mantendo-se na prisão durante 5 anos.
Posteriormente após a independência de Moçambique foi membro da Frelimo e
presidiu à Associação Africana.
Entre outros prémios foi
também o 1º autor africano a receber, em 1991, o Prémio Camões. Craveirinha é um
dos mais reconhecidos poetas da língua portuguesa e um dos maiores escritores
africanos. Refletindo algumas influências dos
surrealistas, representa uma natureza sofrida, resistente, encarna as
transformações de Moçambique nas últimas quatro décadas, mesclando na sua obra
os conflitos da sua época e os tormentos de seu povo.
KARINGANA
UA KARINGANA (Fórmula clássica de iniciar um conto e que possui o
mesmo significado de “Era uma vez”)
Este jeito
de contar as nossas coisas
à maneira simples das
profecias
— Karingana ua Karingana —
é que faz o poeta
sentir-se
gente.
E nem
de outra forma se inventa
o que é propriedade dos
poetas
nem em plena vida se
transforma
a visão do que parece
impossível
em sonho do que vai ser.
—
Karingana!
QUERO
SER TAMBOR
Tambor está velho de gritarOh velho Deus dos homens
deixa-me ser tambor
corpo e alma só tambor
só tambor gritando na noite quente dos trópicos.
Nem flor nascida no mato do desespero
Nem rio correndo para o mar do desespero
Nem zagaia temperada no lume vivo do desespero
Nem mesmo poesia forjada na dor rubra do desespero.
Nem nada!
Só tambor velho de gritar na lua cheia da minha terra
Só tambor de pele curtida ao sol da minha terra
Só tambor cavado nos troncos duros da minha terra.
Eu!
Só tambor rebentando o silêncio amargo da Mafalala
Só tambor velho de sentar no batuque da minha terra
Só tambor perdido na escuridão da noite perdida.
Ó velho Deus dos homens
eu quero ser tambor
e nem rio
e nem flor
e nem zagaia por enquanto
e nem mesmo poesia.
Só tambor ecoando como a canção da força e da vida
Só tambor noite e dia
dia e noite só tambor
até à consumação da grande festa do batuque!
Oh velho Deus dos homens
deixa-me ser tambor
só tambor!
José Craveirinha
DE REMOS PERDIDOS
De remos perdidos
singro o meu bote
no mar da incerteza.
Ganho asas de condor
nas velas brancas
que na imaginação desfraldo.
Navego um navio alado
rumo à ilha desconhecida
que entre brumas, ao longe, avisto.
Teimosa, persisto
entre os bancos de sargaços
em que me enredo.
Nem o fascínio dos corais,
nem o brilho das pérolas
de a alcançar me impede.
Escudo-me num sol poente
de azuis e exóticas madrepérolas
e aporto ao cais das longas esperas.
Isabel Branco
DIZER POESIA
60º Programa: José Craveirinha - Aforismo; Karingana ua Karingana; Quero ser tambor (e o Meu - De remos perdidos)
http://tv.rtp.pt/multimedia/progAudio.php?prog=3273
Transmitido na RDP Internacional a 18 de novembro de 2011.
terça-feira, 15 de novembro de 2011
A Vida...
A Vida!…
A minha…
A tua…
A nossa…
A que tivemos
e a que deveríamos ter tido…
A que soubemos
e a que não nos permitimos…
A que perdemos,
a que sonhamos…
e a que nos falta ainda viver…
A vida…que nos coube,
mal ou bem vivida…
mas que não teria sido a mesma
se as nossas vidas
não tivessem feito parte uma da outra!
A Vida!...
O sorriso, a memória…
A lágrima incontida…
O grito, a luta, a glória…
O silêncio, a chegada, a ida!
Enfim, a nossa história!
Isabel Branco
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