domingo, 13 de novembro de 2011

Adeus, à hora da largada; Poema - Agostinho Neto

59º Programa - Agostinho Neto - DIZER POESIA by Isabel Branco2


DIZER POESIA
59º Programa: Agostinho Neto - Adeus, à hora da largada; Poema (e o Meu - Havemos de voltar) 

http://tv.rtp.pt/multimedia/progAudio.php?prog=3273

Transmitido na RDP Internacional a 11 de novembro de 2011.



Agostinho Neto nasceu em Kaxicane, concelho de Ícolo e Bengo, distrito de Luanda, Angola, a 17 de Setembro de 1922 e faleceu em Moscovo, a 10 de Setembro de 1979, presumivelmente assassinado, no decorrer de complicações ocorridas durante uma operação a um cancro hepático de que sofria, poucos dias antes de fazer 57 anos de idade. Médico, formado em Portugal, preso pela PIDE, e deportado para o Tarrafal pela sua ideologia politica, presidente do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), viria a tornar-se, a 11 de Novembro de 1975, no primeiro presidente de Angola até 1979.
A sua obra, confunde-se com a própria história recente de Angola, condicionada pelas dificuldades do momento em que foi escrita. A poesia de Agostinho Neto é uma poesia engajada que apresenta as imagens poéticas das vivências do homem angolano. Mas ele não fala só do passado e do presente, mas também da busca, da preparação do futuro. Fala da necessidade de lutar, de sonhar, de lutar pela independência, do reconquistar da identidade angolana apesar da presença colonizadora.

ADEUS À HORA DA LARGADA



Minha Mãe
           (todas as mães negras
            cujos filhos partiram)
tu me ensinaste a esperar
como esperaste nas horas difíceis


Mas a vida matou em mim essa mística esperança


Eu já não espero
sou aquele por quem se espera


Sou eu minha Mãe
a esperança somos nós
os teus filhos partidos para uma fé que alimenta a vida


Hoje
somos as crianças nuas das sanzalas do mato
os garotos sem escola a jogar a bola de trapos
nos areais ao meio-dia
somos nós mesmos
os contratados a queimar vidas nos cafezais
os homens negros ignorantes
que devem respeitar o homem branco
e temer o rico
somos os teus filhos
dos bairros de pretos
além aonde não chega a luz elétrica
os homens bêbedos a cair
abandonados ao ritmo dum batuque de morte
teus filhos
com fome
com sede
com vergonha de te chamarmos Mãe
com medo de atravessar as ruas
com medo dos homens
nós mesmos


Amanhã
entoaremos hinos à liberdade
quando comemorarmos
a data da abolição desta escravatura


Nós vamos em busca de luz
os teus filhos Mãe
       (todas as mães negras
        cujos filhos partiram)
Vão em busca de vida.


Agostinho Neto




POEMA


Apetece-me escrever um poema.


Um poema fechado dentro de si
para ser compreendido
 apenas
pelos passarinhos que chilreiam lá fora
sobre as três árvores
da minha única paisagem;
para ser sentido
na canção da seiva
circulante no verde das ervas
do caminho áspero da encosta;
e pelo brilho do sol
e pelo carácter integro dos homens.


Um poema que não sejam letras
mas sangue vivo
em artérias pulsáteis dum universo matemático
e sejam astros cintilantes
para calmas noites
de Invernos chuvosos e frios
e seja lume para acolher as gazelas
que pastam inseguras
nos campos acolhedores da imensa vida;
amizade para corações odientos;
motor impelindo o impossível
para a realidade das horas;
cântico harmonioso para formosura dos homens.


Um poema
- (ah! quem comparou a África
a uma interrogação cujo ponto é Madagáscar?)


Um poema solução
resolvendo a curva interrogativa da imagem
em linha recta de afirmação;
a beleza das florestas virgens
e a precisão da engrenagem da existência;


o som fantástico do trovejar sobre pedras;
os cataclismos fluviais
pendentes sobre as frágeis canoas do rio Zaire;
a obnubilação ansiosa das almas da penumbra
o claro arrebol no olhos dos homens.


Um poema traçado sobre aço
escrito com as flores da terra
e com os braços erguidos da podridão;
esculpido no amor
que exala a esperança daquele meu amigo
a esta hora com a tanga ensopada
no suor do seu dorso;
com as canções adocicadas dum quissange ao luar;
das gargalhadas infantis para a minha amada;
do calor simpático
do corpo sangrento dos homens


Um poema fechado
– longo e imperceptível –
em que amor e ódio entrelaçados
sejam a síntese da discordância
para ser cantado em todas as línguas
guiado pelo som da marimba e do piano;
ritmo de batuque enxertado sobre as valsas
da outra mocidade;
harmonia de xinguilamentos
sobre o bárbaro matraquear das máquinas de escrever;
grito aflitivo no vácuo
debatendo-se para encontrar a vibração da matéria
e a aspiração dos homens.


Mas não escreverei o poema.


Em que subterrâneos circularia
o ar irrespirável da violência?
Nas cavernas dos teus pulmões
ò caften das vielas sórdidas
do conformismo?
Ou na avidez dos quilométricos intestinos
dos chacais?
Ou nas cavidades prostituídas do coração
infame do esclavagismo?
Ou nas goelas
da desonestidade inconsciente?


Não escreverei o poema.


Escreverei cartas à minha amada
preencherei os espaços claros dos impressos
com letra impecável
e nos intervalos
cantarei canções afro-brasileiras.
Sonharei.
Sonharei com os olhos do amor
encarnados nas tuas maravilhosas mãos
de suavidade e ternura.
Sonharei com aqueles dias de que falavas
quando te referias à primavera;
sonharei contigo
e com o prazer de beber gotas de orvalho
na relva
deitado ao teu lado,
ao sol – uma praia furiosa lá ao longe.


E ficará dentro de mim a amargura
por não escrever o poema.


Ele há tantas amargura!
Não escreverei o poema.


Direi simplesmente
que o colosso de certeza na humanidade do Universo
é inapagável
como o brilho das estrelas
como o amor dos teus olhos
com a força na harmonia dos braços
como a esperança nos corações dos homens.


Inapagável
como a sensual beleza
da agilidade das feras sobre o campo
e o terror transmitido dos abismos.


Direi simplesmente sim
sempre sim
à honestidade dos homens
ao viço juvenil da sinfonia das árvores;
ao odor inesquecível da natureza
que apaga todos os possível cheiros amargos.


Sim!
à interrogação mágica de Talamungongo
do Cunene ou do Maiombe,
ao sonoro cântico de ritmo subterrâneo
e dos chamamentos telúricos;
aos tambores
apelando para o fio da ancestralidade
esbatida aqui e além;
ao ponto interrogativo de Madagáscar.


Sim!
às solicitações místicas à musculatura dos membros
ao quente das fogueiras endeusadas
na lenha das sanzalas
às expressões magníficas das faces
esculpidas no alegre sofrimento das quitandeiras
e no ritmo febril das sensações tropicais;
à identidade com a filosofia do embondeiro
ou com a condição dos homens,
ali onde o capim os afoga em confusão.
Sim! À África-terra, à África humana.


 Direi sim
em qualquer poema.


E esperemos que a chuva passe
e deixe de molhar os chilreantes passarinhos
sobre as três árvores da minha única paisagem.


Isso passa.


Agostinho Neto


HAVEMOS DE VOLTAR!


Havemos de voltar!
Mais velhos...
Diferentes...
Derrotados...
Cinzas...
Pó...
Sementes arrastadas pelo vento
num pôr de sol de fogo...
Levados na fúria da maré...
Mas havemos de voltar
numa trovoada tropical,
derrubados
beijaremos a terra
e voltaremos, serenos,
a florescer no capinzal.


Isabel Branco
(in A Outra Parte de Mim...
do livro Dez Degraus até ao Sol)

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Sem Inspiração



Sem inspiração…sem querer, nem achar…
Assim…me declino na apatia dos dias.
Sem motivação… sem escrever, sem mar…
Assim…me calo na agonia das horas vazias.

Desalento! Perco-me de afetos e de temas
na morna quietude duma estranha dormência!
Emudecem as palavras, dormem os poemas
na vasta planície duma frígida ausência.

Sinto!…A existência como se a não sentisse!
Presa ao nada, alheia, indiferente,
como não vivesse, como nada visse…

Silencio!...Corre a tinta demente
rasurando, como se o papel ferisse
e, este meu eu, triste, matasse simplesmente…


Isabel Branco

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Pingos de Chuva





Entre os pingos da chuva
nesse pingue-pingue cadenciado
que a melancolia abraça,
cresce uma onda incolor,
manto de tristeza e dor,
alagando o ser silenciado.

E cada pedra sorve a transparência do havido…
Cada pedaço de chão veste-se de verde acontecido…
Cada hálito repassa a húmida e tugida
voz da natureza adormecida.
Cada semente rasga a vida
na majestade duma simples flor…

Essa face oculta da verdade
pela chuva disfarçada
rompe dos olhos alucinada
em gotas de solidão e de mágoa…
Há alma e beleza na fealdade
e um renascer a cada oportunidade!

Isabel Branco

sábado, 5 de novembro de 2011

Em Torno da Minha Baía; Ilha Nua - Alda do Espírito Santo

58º Programa - Alda do Espírito Santo - DIZER POESIA by Isabel Branco2

 Alda do Espírito Santo, também conhecida por Alda Graça, nasceu em São Tomé a 30 de Abril de 1926. Foi educada em Portugal, regressando depois à sua Ilha, como professora, exercendo posteriormente alguns cargos governamentais nas áreas da Educação, da Informação e da Cultura e ainda como deputada e Presidente da Assembleia Nacional. Presidente da União Nacional dos Escritores e Artistas de São Tomé e Príncipe, cargo que acumulou com a Presidência do Fórum da Mulher de S. Tomé e Príncipe é autora da letra do hino nacional de S. Tomé e Príncipe e de uma poesia, que expressa o protesto e a luta, intimamente associados às aspirações do seu povo e à liberdade. Os seus poemas aparecem nas mais variadas antologias lusófonas, bem como em jornais e revistas de São Tomé e Príncipe, Angola e Moçambique. Depois de publicar "O Jogral das Ilhas, em 1976, publicou em 1978 "É nosso o solo sagrada da terra", um dos seus trabalhos mais importantes, conjuntamente com Trindade outro livro que publicaria mais tarde. Faleceu a 10 de Março de 2010, aos 83 anos, em Luanda para onde foi evacuada para a amputação duma perna devido a diabetes.

EM TORNO DA MINHA BAÍA 


Aqui, na areia, 
Sentada à beira do cais da minha baía 
do cais simbólico, dos fardos, 
das malas e da chuva 
caindo em torrente 
sobre o cais desmantelado, 
caindo em ruínas 
eu queria ver à volta de mim, 
nesta hora morna do entardecer 
no mormaço tropical 
desta terra de África 
à beira do cais a desfazer-se em ruínas, 
abrigados por um toldo movediço 
uma legião de cabecinhas pequenas, 
à roda de mim, 
num voo magistral em torno do mundo 
desenhando na areia 
a senda de todos os destinos 
pintando na grande tela da vida 
uma história bela 
para os homens de todas as terras 
ciciando em coro, canções melodiosas 
numa toada universal 
num cortejo gigante de humana poesia 
na mais bela de todas as lições: 


HUMANIDADE 


Alda do Espírito Santo 

ILHA NUA 


Coqueiros e palmares da Terra Natal 
 Mar azul das ilhas perdidas na conjuntura dos séculos 
 Vegetação densa no horizonte imenso dos nossos sonhos. 
 Verdura, oceano, calor tropical 
 Gritando a sede imensa do salgado mar 
 No deserto paradoxal das praias humanas 
 Sedentas de espaço e de vida 
 Nos cantos amargos do ossobô (1) 
Anunciando o cair das chuvas 
 Varrendo de rijo a terra calcinada 
 Saturada do calor ardente 
 Mas faminta da irradiação humana 
 Ilhas paradoxais do Sul do Sará 
 Os desertos humanos clamam 
 Na floresta virgem 
 Dos teus destinos sem planuras... 


Alda do Espírito Santo 


1 - 0ssobô: ave de belas cores, cujo canto, segundo a tradição, anuncia chuva. Tem ainda a força mítica que o associa a regiões paradisíacas. 

NÃO SOU DAQUI… 


Não sou daqui... 


Vim do Longe, 
do Ontem 
que Amanhã há-de provir. 


Esmoreço, por aqui... 


No meu hábito de monge 
a ninguém, a nada 
me identifico. 


Areia doutro mar, 
embruteço, petrifico 
no tempo sem idade, 
incapaz de mudar... 


Bicho doutro mato, 
sol doutra selva, 
em lúcida identidade 
vagueio plena do acto... 


Inócua, desenraizada, 
humana me ramifico 
e me entrelaço na cidade 
pelas lianas do ali... 


Ato e desato 
o presente sem vacilar! 


Não!... 
Não sou daqui... 


E, fico... 


Fico 
na louca vontade de partir, 
cheirando além, 
a rosas, a relva, 
ao lírio branco 
do recomeçar... 


Isabel Branco




DIZER POESIA
58º Programa: Alda do Espírito Santo - Em Torno da Minha Baía; Ilha Nua (e o Meu - Não Sou Daqui...) 

http://tv.rtp.pt/multimedia/progAudio.php?prog=3273

Transmitido na RDP Internacional a 04 de novembro de 2011.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Minha alma, meu ser...



Minha alma grita, 
esbraceja aflita... 
 Meu ser reclama, 
 chora, ri e ama... 


 Óh alma proscrita, 
 cigana maldita... 
 Ó ser, fúria, chama 
 qu’ a fogueira inflama! 


 Minha alma se agita 
 se esconde e cogita... 
 Arbusto, rama, 
 meu ímpio ser s’acama. 


 Isabel Branco

sábado, 10 de setembro de 2011

Não tenho pressa



Não tenho pressa...
Vou andando devagar, passo a passo
o meu caminho, a minha estrada.
Hei-de chegar ao despontar duma qualquer manhã
com o cantar dos pássaros
e um cheiro adocicado a maçã.
Já me debati, já me feri
no arame farpado que para trás deixei,
no campo de concentração
aonde aprisionei a minha ilusão...
Troquei a máscara, lavei as mãos,
salpiquei meu árido chão
de acetinadas pétalas de rosa
e dos espinhos fiz a minha coroa
mas, sigo...sigo sobrevivente a minha estrada.
Já me perdi no cansaço, andei à toa,
bebi o pó das encruzilhadas,
ateei o fogo no mato das minhas fogueiras
e guiei-me pelas estrelas na gélida noite enluarada,
do deserto da minha solidão.
Na rubra cor da romã
arrastei os pés e o coração!
No barro da minha terra enterrei
a aliança mais valiosa
da minha primeira vida,
dos meus tempos de menina!
Vou...agora sem pressa...
meu destino hei-de alcançar
na calma dum outro respirar...
Fica minha presença impressa
na suave brisa da maresia,
no azul da tinta, do mar e do amar
na imortal voz da poesia.
Na areia, as ondas aos poucos abraçam
o sinal da minha caminhada,
as pégadas da minha vida...
Sigo...no entanto, sem pressa...empenhada
até onde seja o meu lugar!

Isabel Branco

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Padecer




Cada dia é um começo;
cada dia é um fim...
O amor acontece...
a saudade permanece
na constante renovação,
num sopro de vento,
na visão do adeus inevitável.

E o poeta...Ah! o poeta...
esse...de sentida dor,
intensamente, padece...

Isabel Branco


domingo, 21 de agosto de 2011

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Sol




Sol, oiro dos meus dias,
porque teimas em esconder-te
entre as montanhas e as nuvens?
Vem...irrompe pelas serranias,
vital, no meu céu a brilhar,
abraça-me e dá-me a mão!
Vem...iluminar-me de luz
Vem...espraiar-te no poente
azul dourado do nosso (a)mar...


Isabel Branco



quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Alma Aprisionada


(Imagem da Net)



Ah! Esta ansiedade que me agita,
este meu estar desassossegado...
Ah! Este grito incontido
que me magoa as cordas vocais
a cada eco de descontentamento...
Este mau humor, este mau feitio
parecem peixes enlouquecidos
em aquários redondos, pequenos,
girando, girando estúpidos
em círculos infinitos.
Esta prisão, a pior de todas,
a das minhas próprias barreiras colossais,
tem muros altos e brancos
perfilados no gélido e manso lago sombrio,
espelho do meu olhar,
tem algemas, tem correntes e calabouços malditos,
penas máximas ...e pecados capitais ...
Ah! Esta minha alma...insubmissa, incontrolada...
chafariz de pensamentos hediondos,
quer apenas dormir...quer apenas descansar...
e, absolvida, em justa e absoluta tranquilidade,
em inocentes sonhos adormecer e sonhar...
asa à solta voando em liberdade!

Isabel Branco